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“Chorava em silêncio”, diz estudante que recebeu doação de comida e roupa de amigos

“É para você, Theu”. Foi com essa mensagem, presa na parede da sala de aula do 3º ano do Ensino Médio, que Matheus Justino, 18 anos, recebeu uma das maiores surpresas da vida: a solidariedade de amigos. Na última sexta-feira, 29, colegas de sala do jovem se reuniram e entregaram a ele alimentos e itens de higiene pessoal. A história foi em Salvador.

A ideia de se mobilizar para ajudar o jovem começou quando a escola onde ele estuda, que é mantida por uma instituição, na periferia da capital baiana, informou que não poderia mais servir almoço no local, por determinação da sede, que fica em outro Estado. Ao receber a notícia, Matheus não conteve as lágrimas. Foi aí que os colegas ficaram sabendo da situação financeira do jovem. “Eu sempre almoçava na escola porque, a comida que tinha em casa, eu deixava para meus irmãos menores”, contou.

Para ajudar o estudante, além da arrecadação de alimentos, os colegas criaram duas vaquinhas online, com o intuito de arrecadar dinheiro para a família de Matheus – uma no site Vakinha e a outra no Abacashi. O objetivo é atingir R$ 10 mil e, até o momento, já foram arrecadados cerca de R$ 6 mil. Também foi criado um perfil no Instagram com a história do garoto, que, em apenas um dia, ultrapassou 20 mil seguidores.

Uma das mentoras do ato de solidariedade e amiga do estudante, Victória Coelho, 17, conta que no ano passado alguns amigos mais próximos já tinham feito doações de roupas e materiais escolares para Matheus.

“Ele nunca quis contar nada à escola, porque ele é muito discreto. A realidade é que a mãe dele está desempregada, com dificuldade até para alimentar os filhos, principalmente os dois caçulas”, revela a jovem.

Grato e emocionado com a mobilização, Matheus já sabe exatamente qual será o destino do valor que arrecadar com as vaquinhas. “Esse dinheiro vai ser utilizado para quitar as dívidas de minha mãe. Não quero mais vê-la chorar de preocupação”, conta Matheus.

Além da contribuição virtual, quem quiser ajudar a família do garoto, pode fazer doação de roupas para ele e os irmãos. A mãe de Teco, Marli Maria de Jesus, 49, também está em busca de um emprego.

Ela já trabalhou como empregada doméstica, em restaurantes, como manicure, mas está desempregada há mais de 10 anos, fazendo apenas alguns bicos. “Eu tenho curso de manicure, sei fazer unha, mas estou com as vistas ruins, não enxergo direito de perto. Além disso, não tenho dinheiro pra comprar material pra fazer as unhas das clientes. Tudo que eu penso em fazer, preciso desistir porque não dá pra começar nada sem dinheiro. Desanima”, explica.

Não é só Marli que sonha em trabalhar. Matheus ainda está na escola, mas já sabe bem o que quer: ser banqueiro – não confundam com bancário.

“Quero fazer administração, depois cursos de economia e sonho alto em ser dono de banco. Nunca mais quero ver minha família passar dificuldade”, contou.

Esforço pela família

Segundo a amiga Victória, Matheus acorda cedo todos os dias e, novamente para que os irmãos possam tomar café da manhã, busca outra forma de se alimentar. “Ele acorda muito cedo, vai até uma padaria, onde o café da manhã é fornecido por uma senhora, que sempre o ajudou. Depois, ele almoçava na escola e lanchava. Em casa, ele deixava sempre os alimentos para a família”, conta.

Matheus é o terceiro dos cinco filhos de Marli. Os outros dos irmãos mais velhos, de 21 e 22 anos, já fazem faculdade e conseguem, ao menos, se alimentar por conta própria. No entanto, os mais novos, Érick, 11, e Ingrid, 9, ainda dependem dos esforços da mãe e da abdicação de Matheus.

“Minha mãe, por mais esforço que faça, não tem conseguido sustentar a família. Eu já a vi chorar de tanta preocupação, porque a prioridade tem sido a alimentação. Então, ela tem dívidas com empresa de água e energia, por exemplo. E eu já chorei escondido, também de desespero, mas não quis que ela me visse”, declarou o jovem.

Morador de Salvador, ele perdeu o pai quando tinha apenas um ano de vida. Apesar de ter tido outro relacionamento, quando nasceram os irmãos mais novos, a mãe de Matheus é quem, sozinha, sustenta e mantém toda a família. “Ela nunca desistiu. Sempre foi forte”, disse o jovem.

Surpresa

Na última sexta-feira, Matheus teve uma certeza: “ainda é possível acreditar no ser humano”. O jovem contou que, na noite anterior à surpresa, foi removido do grupo que a turma tem no WhatsApp. “Fiquei preocupado, mas, como tinha prova no outro dia, deixei para resolver isso depois”, afirmou.

Matheus fez a prova, foi lanchar e estranhou a ausência dos colegas. “Olhei para o lado e não vi ninguém”. Logo depois, uma colega pediu que ele fosse até a sala de aula. Foi lá que o adolescente teve a surpresa.

“Tinha uma faixa no quadro e os alimentos estavam cobertos em uma mesa. Quando eu vi o que era, me emocionei. Foi uma felicidade muito grande perceber que eles se importaram comigo e com a minha família”, disse.

Além de Victória, outra ‘cabeça’ do plano foi Brenda Naiade, que também estuda com Matheus. “Eu me perguntava como alguém que vive tanta dificuldade consegue estar sempre sorrindo. Ele é assim, nunca diz não aos amigos, ajuda a todo mundo. Então, chegou a nossa vez que retribuir”, declarou a garota.

Cada aluno contribuiu com alguns alimentos para formar a cesta básica. E o plano era fazer isso mês a mês. “A gente não esperava que a história fosse ganhar as redes sociais e ter tanta repercussão”, confessou Victória.

Ela também contou que os atos de solidariedade não vão parar. “A gente tem ajudado Matheus, mas, quando a família dele estiver bem, a mãe empregada, tudo controlado e feliz, pretendemos estender os atos de solidariedade a outras pessoas que precisam. Nunca imaginei a força que tudo isso tomaria e eu não quero parar”, prometeu.

A mãe do garoto conta que ficou emocionada com a surpresa. “Eu fiquei surpresa, porque eu não estava esperando. Eu vejo como algo de Deus. Às vezes Deus faz umas coisas que a gente não entende e, depois, nos mostra o porquê, ensina alguma coisa. Tem um propósito. E eu pude ver o quanto meu filho é querido, isso tudo me ensinou muito”, conta Marli.

“As doações ajudaram muito. Antes eu mal conseguia comer direito, agora vou conseguir me alimentar, alimentar meus filhos, e eu aceitei mais por isso também. Estou muito feliz”, completa.

Infância

O CORREIO quis saber como tinha sido a infância de Matheus. Nesse momento, o jovem ficou mudo. Não sabia o que dizer. Até que, de uma hora para a outra, lembrou da casa onde passou a infância.

“Foi uma casa que meu pai deixou pra gente. Tinha um quintal grande, onde eu passava a maior parte de meu tempo. Me sentia livre. Era quando eu fugia mentalmente de tudo e ficava sonhando e pensando em minha vida”, contou.

No entanto, com a demolição da casa, em razão de problemas no terreno, Matheus e a família se mudaram para outra casa periferia, onde vivem até hoje.

“A gente sempre passou dificuldade, mas minha mãe contornava tudo. Ela recebe bolsa família, mas o valor é muito baixo para tanta despesa. O que ela precisa mesmo é de um emprego para cuidar da casa, dos filhos e da própria vida”, concluiu.

Fonte: Correio

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