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78,4% dos municípios baianos registraram casos de intoxicação por medicamentos
Uma dor de cabeça persistente, um resfriado, febre ou dores musculares costumam ser suficientes para que milhões de brasileiros recorram ao armário de medicamentos antes mesmo de procurar atendimento médico. Incorporada ao cotidiano da população, a automedicação se consolidou como um dos principais desafios da saúde pública no país, diante dos riscos de intoxicações, reações adversas, agravamento de doenças, resistência bacteriana e até mortes evitáveis.
Levantamento do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ) mostra que 86% dos brasileiros utilizaram medicamentos sem prescrição médica em 2024. A pesquisa aponta que esse comportamento é mais frequente entre mulheres, pessoas economicamente ativas e indivíduos com maior nível de escolaridade, revelando que o hábito está disseminado entre diferentes perfis da população.
Embora o levantamento do ICTQ tenha abrangência nacional, estudos recentes mostram que os impactos do uso inadequado de medicamentos também aparecem de forma expressiva na Bahia. Pesquisa publicada em junho de 2025 na Revista Científica Eletrônica do Conselho Regional de Farmácia da Bahia, elaborada com base em dados da Secretaria da Saúde do Estado (Sesab) e do DataSUS, identificou 24.932 notificações de intoxicação por medicamentos entre 2015 e 2024, média de aproximadamente 2.493 casos por ano.
O levantamento revela que 327 dos 417 municípios baianos (78,4%) registraram pelo menos um caso de intoxicação por medicamentos durante o período analisado, demonstrando que o problema está disseminado em praticamente todo o estado. Salvador concentrou 34,64% das notificações, seguida por Itabuna (3,77%) e Ipiaú (2,93%). Os pesquisadores observaram ainda que 2023 foi o ano com maior número de registros, seguido por 2022 e 2019, indicando uma tendência de crescimento das notificações.
Mulheres
As mulheres responderam por 73,1% das intoxicações notificadas, enquanto a faixa etária entre 20 e 39 anos concentrou 42,47% dos casos. A pesquisa mostra ainda que 57,12% das intoxicações ocorreram durante tentativas de suicídio, 10,83% foram classificadas como acidentes e 6,34% tiveram relação direta com a automedicação, evidenciando que o uso inadequado de medicamentos permanece como importante causa de adoecimento e demanda por atendimento nos serviços de saúde.
Para o presidente do Conselho Regional de Farmácia da Bahia (CRF-BA), Mário César dos Santos, a automedicação deixou de ser apenas um comportamento individual para se tornar um problema coletivo. “A automedicação é um importante problema de saúde pública porque, embora existam situações em que medicamentos isentos de prescrição possam ser utilizados com orientação do farmacêutico, grande parte da população utiliza medicamentos de forma inadequada, sem diagnóstico correto e sem acompanhamento de um profissional de saúde. Essa prática pode mascarar doenças, retardar o diagnóstico, favorecer intoxicações, reações adversas, interações medicamentosas e o uso inadequado de antimicrobianos, contribuindo inclusive para o aumento da resistência bacteriana”, afirma.
Os medicamentos mais utilizados sem orientação profissional continuam sendo analgésicos, antitérmicos, anti-inflamatórios e remédios para gripes e resfriados. O estudo também identificou um crescimento no consumo de medicamentos para ansiedade, insônia, estresse e emagrecimento sem acompanhamento médico, prática que
pode mascarar doenças, retardar diagnósticos e provocar complicações que poderiam ser evitadas.
Custos
Segundo o presidente do CRF BA, Mario Cesar, além dos prejuízos à saúde dos pacientes, o uso irracional de medicamentos provoca impactos econômicos relevantes para o sistema público de saúde. “O uso inadequado de medicamentos gera aumento de internações e complicações que poderiam ser evitadas com orientação profissional. É um problema que afeta diretamente a qualidade da assistência e os custos da saúde pública”, ressalta.
Entre os medicamentos que mais preocupam o Conselho Regional de Farmácia estão antibióticos, ansiolíticos, hipnóticos, opioides, corticosteroides, anti-inflamatórios, medicamentos para diabetes e os agonistas do receptor de GLP-1, conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras”.
Para Mário César, um dos principais equívocos da população é acreditar que medicamentos vendidos sem retenção de receita sejam completamente seguros. “O fato de um medicamento ser isento de prescrição não significa que ele seja isento de riscos. Mesmo esses medicamentos podem provocar intoxicações, reações alérgicas, interações medicamentosas, agravamento de doenças, lesões hepáticas e renais, além de mascarar sintomas e dificultar o diagnóstico correto.”
Popularização
O avanço do uso de medicamentos voltados ao tratamento da ansiedade, da insônia e da obesidade também tem chamado a atenção dos profissionais de saúde. A popularização desses produtos nas redes sociais, somada à busca por resultados rápidos, fez crescer o número de pessoas que iniciam tratamentos por conta própria, sem avaliação médica ou acompanhamento farmacêutico.
Segundo o presidente do CRF-BA, Mario Cesar, essa prática pode trazer consequências importantes à saúde, especialmente quando os medicamentos são utilizados por pessoas que não apresentam indicação clínica ou fazem uso concomitante de outros tratamentos.
“Observa-se uma crescente procura por medicamentos voltados ao tratamento da ansiedade, insônia e obesidade, impulsionada por fatores como divulgação nas redes sociais, facilidade de acesso à informação e busca por resultados rápidos. Quando utilizados sem acompanhamento profissional, esses medicamentos podem provocar dependência, alterações cardiovasculares, efeitos psiquiátricos, distúrbios metabólicos, reações adversas importantes e uso em pacientes para os quais não são indicados”, afirma.
No caso específico dos medicamentos utilizados para emagrecimento, ele destaca que os riscos vão além dos efeitos colaterais mais conhecidos. “O uso inadequado também pode mascarar doenças, provocar perda de massa muscular, desnutrição e dificultar o manejo adequado da obesidade, que é uma doença crônica e multifatorial”, explica.
Os prejuízos provocados pela automedicação não se limitam aos sintomas imediatos. Entre as consequências mais frequentes estão intoxicações, reações alérgicas, interações entre diferentes medicamentos, agravamento de doenças preexistentes, falhas terapêuticas, dependência química e lesões em órgãos como fígado e rins.
No caso dos antibióticos, o uso inadequado favorece um problema considerado um dos maiores desafios da saúde mundial: a resistência bacteriana. Quando esses medicamentos são utilizados sem necessidade, em doses incorretas ou pelo tempo inadequado, as bactérias tornam-se resistentes aos tratamentos disponíveis, reduzindo a eficácia dos antibióticos e dificultando o combate às infecções.
Farmacêuticos
Para enfrentar esse cenário, o farmacêutico desempenha papel estratégico na orientação da população. A Lei nº 13.021/2014 reconhece a farmácia como estabelecimento de saúde e determina a presença obrigatória desse profissional durante todo o horário de funcionamento. “O farmacêutico é o especialista em medicamentos e desempenha papel fundamental na promoção do uso adequado, na prevenção da automedicação e na segurança do paciente. Entre suas atribuições estão orientar sobre o uso correto dos medicamentos, avaliar possíveis interações e contraindicações, identificar situações que demandam encaminhamento a outros profissionais de saúde, promover ações de educação em saúde e contribuir para a adesão aos tratamentos”, destaca Mário César.
Além da orientação direta aos pacientes, o farmacêutico também é responsável por assegurar que a dispensação de medicamentos ocorra dentro das normas sanitárias, especialmente no caso de medicamentos sujeitos a controle especial. “A presença do farmacêutico durante todo o funcionamento da farmácia é essencial para garantir que a dispensação aconteça de forma técnica e responsável. Cabe a esse profissional verificar a regularidade das prescrições, assegurar o cumprimento da legislação e proteger a população dos riscos relacionados ao uso inadequado de medicamentos”, acrescenta.
O presidente do CRF-BA ressalta, no entanto, que o enfrentamento da automedicação não depende exclusivamente dos farmacêuticos ou dos conselhos profissionais. “A redução da automedicação é uma responsabilidade compartilhada entre profissionais de saúde, órgãos reguladores, estabelecimentos de saúde, gestores públicos e a própria sociedade. O acesso à informação qualificada e a promoção do uso racional de medicamentos são fundamentais para reduzir os riscos associados a essa prática.”
Fonte: Tribuna da Bahia










