
A dificuldade para ouvir costuma ser encarada como uma consequência natural do envelhecimento, mas ignorar os primeiros sinais da perda auditiva pode trazer impactos muito mais amplos do que a limitação na comunicação. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), atualizados em março de 2026, mostram que mais de 430 milhões de pessoas vivem com perda auditiva incapacitante no mundo e que esse número pode ultrapassar 700 milhões até 2050.
Para o médico geriatra Leonardo Lopes, coordenador da pós-graduação em Geriatria da Afya Educação Médica em Vitória da Conquista, a relação entre audição e saúde cerebral é hoje um dos principais temas da medicina do envelhecimento. “A perda auditiva na meia-idade é o principal fator de risco modificável para o desenvolvimento de demências. Estima-se que seu tratamento precoce possa evitar ou adiar uma parcela significativa dos casos”.
Segundo o especialista, quando a audição diminui, o cérebro precisa fazer um esforço maior para compreender sons e falas, consumindo recursos que seriam destinados à memória, à atenção e ao raciocínio. Ao mesmo tempo, a redução dos estímulos auditivos pode acelerar alterações em áreas cerebrais relacionadas à memória, enquanto o isolamento social provocado pela dificuldade de comunicação contribui para o declínio cognitivo.
Os impactos também atingem a saúde emocional. De acordo com Milena Meirelles, professora do curso de psicologia da Afya Vitória da Conquista e psicóloga responsável pelo Núcleo de Experiência Docente (NED) da instituição, a perda auditiva interfere diretamente na forma como a pessoa se relaciona consigo mesma e com os outros: “A perda auditiva pode impactar profundamente a forma como a pessoa se percebe, se relaciona e participa da vida em sociedade.” Ela conta que muitas pessoas passam a evitar encontros familiares, atividades sociais e até compromissos profissionais por receio de não compreender as conversas. O isolamento favorece sentimentos de solidão, baixa autoestima, tristeza, ansiedade e depressão.
Além disso, o esforço constante para interpretar sons também compromete funções como memória, atenção e processamento das informações. “Isso reforça a importância do diagnóstico precoce e da intervenção adequada, não apenas para melhorar a audição, mas também para preservar funções cognitivas e promover um envelhecimento saudável”, alerta a psicóloga.
Como a perda auditiva costuma surgir de forma lenta, muitos idosos não percebem o problema. Por isso, familiares e cuidadores têm papel importante na identificação de sinais como aumento do volume da televisão, dificuldade para compreender conversas, necessidade constante de pedir repetição, irritabilidade, fadiga mental, esquecimentos frequentes e afastamento do convívio social.
Segundo Leonardo Lopes, muitas vezes o que parece ser um problema de memória tem origem na dificuldade para ouvir: “Muitas vezes, a informação sequer foi processada pelo cérebro devido à dificuldade para ouvir. O idoso parece esquecer um recado ou uma orientação quando, na verdade, não conseguiu compreendê-los adequadamente.” Já a psicóloga Milena ressalta que essas mudanças comportamentais não devem ser encaradas como naturais do envelhecimento, pois podem indicar sofrimento emocional relacionado à perda auditiva.
O uso de aparelhos auditivos, quando indicado, ajuda a restabelecer os estímulos sonoros e favorece a retomada da convivência social. O geriatra Leonardo Lopes recomenda avaliações auditivas periódicas a partir dos 50 anos, além da prática de atividade física, controle de doenças cardiovasculares, proteção contra ruídos intensos e manutenção de uma vida social e intelectualmente ativa.
Milena Meirelles destaca ainda a importância do acompanhamento multiprofissional, envolvendo médico, fonoaudiólogo e psicólogo, para que o paciente receba um cuidado integral: “É fundamental entendermos que ouvir vai muito além de captar sons. A audição está diretamente ligada à comunicação, aos relacionamentos, à autonomia e à saúde mental. Identificar precocemente a perda auditiva e buscar tratamento adequado é uma forma de cuidar não apenas da audição, mas da qualidade de vida e do bem-estar integral das pessoas”, conclui.
Fonte: ASCOM















